segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Acampados escorraçados

Olá, pessoal!

Todos devem estar sabendo do movimento Acampa/Ocupa Sampa. Embora eu não esteja participando, eu acho uma iniciativa importante e sou totalmente favorável a ele. E é por isso que fiquei indignado com esta informação, que chegou até mim via Facebook e agora posto aqui para cada um pensar e avaliar por conta própria:

"Durante a madrugada deste sábado, por volta das 4 horas, a Tropa de Choque se posicionou frente a frente com os manifestantes e obrigou o Acampa | Ocupa Sampa a retirar as barracas.

Nós, do Ocupa | Acampa Sampa, vimos a público manifestar nosso repúdio às ações da Polícia Militar do Estado de São Paulo que se dão durante a calada da noite, quando os movimentos sociais não têm tanto suporte e quando há menor a visibilidade da sociedade.


Entendemos que, se a Polícia está fazendo o que é “certo”, então que faça durante a luz do dia, com transparência de suas ações para a sociedade que a sustenta. É o nosso dinheiro que mantém esta instituição e é um absurdo que ela exista para reprimir aqueles que buscam por mudanças.


O Acampa | Ocupa Sampa conseguiu evitar o confronto, pois busca sempre o diálogo. Acreditamos na não-violência e vamos sempre prezar por isso, mas também deixamos claro que não seremos submissos à esta polícia violenta e à este Estado excludente. Por isso abaixamos nossa barraca conforme solicitado, mas em nova assembleia relembramos e afirmamos que somos um movimento de Acampada e entendemos que nossas barracas são parte da nossa manifestação e não podem ser desarmadas. Nossas barracas são nossas barricadas!


O direito de livre manifestação e reunião é garantido pela Constituição. Não vamos abrir mão disso!"

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Movimento gota d'água

Uma coisinha séria hoje, pessoal. Meio ambiente. Todo mundo já tá CALVO de saber que no passar dos séculos não temos cuidado lá muito bem do nosso pedacinho de terra na galáxia, e os fatos são simples: Ou a gente se endireita ou vamos ter que procurar um lugar novo pra morar. É. Com a tecnologia de viagens espaciais basicamente no mesmo ponto que estava 20 ou 30 anos atrás. Em bom português: Não temos outro lugar para ir! Então, é sempre bom lembrarmos de cuidar do que temos aqui. E são as pequenas atitudes que fazem a diferença. Não dá para carregar uma montanha nas costas, mas bem que podemos mover rochas. Uma por uma.
E aqui está mais uma que precisa ser movida. Vocês já devem ter ouvido falar da usina de Belo Monte, não? Está nos jornais desde pelo menos o ano passado, que EU me lembre (se bobear, até mais), e não pensem que pelos jornais estarem falando MENOS dela agora significa que o problema foi resolvido. Não foi, o problema ainda está aí. Basicamente, nós o povo, estamos pagando impostos para a construção de uma usina MONSTRO que terá aproveitamento ÍNFIMO perto do que poderia ser, pois será construída em uma região de secas. E para sua construção, uma barragem será feita, destruindo completamente o Parque Nacional do Xingu. Então vejamos os problemas dessa ideia:

  • Estamos gastando bilhões de reais no financiamento dessa tranqueira, na forma de impostos pagos pelo contribuinte;
  • Uma hidrelétrica ENORME em uma região de secas produzirá muito, muito menos do que deveria (não lembro números, vejam o vídeo abaixo);
  • O Parque Nacional do Xingu é uma importante reserva florestal que será perdida com essa construção;
  • As populações indígenas da região serão afetadas, tendo que se deslocar, provavelmente para os grandes centros urbanos do Pará, aumentando os números dos mendigos e moradores de rua.
Como podem ver, há motivos suficientes para se preocupar. Então, que tal fazermos nossa parte e assinarmos o abaixo-assinado pela suspensão das obras? Pode não ser exatamente a coisa com efeito mais garantido, mas sinceramente? Sentar e reclamar que só nos roubam também não tem ajudado muito. Então, se puder, veja o vídeo anexo e visite o site: www.movimentogotadagua.com.br

Quero acreditar que podemos fazer a diferença. Vamos tentar, pessoal!


video

sábado, 5 de novembro de 2011

Tradução: Jerusalém, de William Blake

MUITO tempo sem postar por aqui. Mas não esqueci o blog, não!
Hoje eu trago uma poesia que eu traduzi por esporte (logo, não pertence a nenhum cliente e posso divulgar à vontade). É de um dos maiores poetas da literatura inglesa, William Blake. O cara era um grande artista iluminado, além da poesia e das gravuras ele também desenvolvia suas teorias e ideias místicas e metafísicas. Uma figura deveras curiosa. Aconselho muito ler sobre ele.
O poema escolhido foi Jerusalem, também conhecido como And did those feet. Postarei primeiro o original em inglês e na sequência minha tradução. Foi igualmente trabalhosa e prazerosa. Espero que seja um prazer como leitura para vocês, também. Ah: dedico essa tradução a todos os movimentos e ações libertárias, presentes, passados e futuros, que lutam, lutaram e lutarão e não cessarão o combate até que nossa terra seja uma Jerusalém. Uma Avalon. Uma Camelot. Uma Asgard. Os Campos Elísios. E todos esses ao mesmo tempo.


And did those feet in ancient time.
Walk upon England's mountains green:
And was the holy Lamb of God,
On England's pleasant pastures seen!

And did the Countenance Divine,

Shine forth upon our clouded hills?
And was Jerusalem builded here,
Among these dark Satanic Mills?

Bring me my Bow of burning gold;

Bring me my Arrows of desire:
Bring me my Spear: O clouds unfold!
Bring me my Chariot of fire!

I will not cease from Mental Fight,

Nor shall my Sword sleep in my hand:
Till we have built Jerusalem,
In England's green & pleasant Land


Em tempos idos, estes pés,
Peregrinaram nas montanhas:
Foi visto então, o Cordeiro,
Nos pastos verdes da Inglaterra!

E o semblante divino
Brilhara em meio aos turvos montes?
E aqui nasceu Jerusalém
Em meio à máquina infernal?

Tragam-me o arco dourado
Tragam-me as flechas do desejo
Tragam a lança entre as nuvens
Tragam o carro flamejante

Não cessará meu combate
Nem minha espada hei de baixar
Até que ergamos Jerusalém
Nos verdes campos da Inglaterra!!!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Defenestração - De Luis Fernando Verissimo

É impressionante como na internet as coisas aparentemente sem nenhuma ligação intrínseca acabam encontrando ou até mesmo criando tal conexão. Este post exemplifica bem isto. O conto que postarei logo abaixo é um conto de Veríssimo que li muitos anos atrás em uma das suas antologias de contos (ou crônicas? acho que são crônicas, né?), da qual não lembro o nome, mas lembro claramente que era hilário (como vocês conferirão por si mesmos mais adiante). Pois bem, hoje, menos de 60 minutos atrás, estava acompanhando minhas atualizações do Twitter, quando um site de apologética cristã que eu sigo, o Genizah Virtual mandou um texto que continha um link para este site onde estava a crônica publicada na íntegra. E assim nasce o post nº1 de 2011. Espero que leiam e gostem. E depois de lerem e gostar muito, visitem o Gambiarra's Blog, leiam, se divirtam e comentem (nem precisam se limitar aos MEUS posts, viram como sou bonzinho?).

Boa crônica per tutti.

Defenestração - De Luis Fernando Verissimo

"
Defenestração – Luis Fernando Veríssimo
Certas palavras tem o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias com todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra.
Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria.
- Os hermeneutas estão chegando!
- Ih, agora que ninguém vai entender mais nada…
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
- Alo…
- O que é que você quer dizer com isso?
Traquinagem deveria ser uma peça mecânica.
- Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.
Plúmbeo deveria ser barulho que um corpo faz ao cair na água.
Mas, nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração.
A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar deveria ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico. Galanteadores de calçada deveriam sussurrar ao ouvido de mulheres:
- Defenestras?
A resposta seria um tapa na cara. Mas, algumas… Ah, algumas defenestravam.
Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais.
Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerram os documentos formais? “Nesses termos , pede defenestração..” Era uma palavra cheia de implicações. Devo até tê-la usado uma ou outra vez, como em?
-Aquele é um defenestrado.
Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada era a palavra exata.
Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. “Defenestração” vem do francês “Defenestration”. Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela.
Ato de atirar alguém ou algo pela janela!
Acabou a minha ignorância, mas não minha fascinação. Um ato como esse só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada a baixo. Por que então, defenestração?
Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo.
- Lês defenestrations. Devem ser proibidas.
- Sim, monsieur le Ministre.
- São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios.
- Sim, monsieur lê Mnistre.
-Com prédios de três, quatro andares, ainda era possível. Até divertido. Mas, daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: “Interdit de defenestrer”. Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos.
Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez ainda persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.
- É essa estranha vontade de jogar alguém ou algo pela janela, doutor…
- Humm, O Impulsus defenestrex de que nos fala Freud. Algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar – diz o analista, afastando se da janela.
Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada.
Na lua-de-mel, numa suíte matrimonial no 17º andar.
-Querida…
- Mmmm?
-Há uma coisa que preciso lhe dizer…
-Fala amor.
-Sou um defenestrador.
E a noiva, na inocência, caminha para a cama:
- Estou pronta pra experimentar tudo com você. Tudo!
Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia:
- Fui defenestrado…
Alguém comenta:
- Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela.
Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassa-lo e defenestrar essa crônica. Se ela sair é porque resisti."